Meu segundo aniversário

“Agora acho que consigo te explicar o que eu quero com o parto do Dante. Não quero só um parto normal, quero uma transformação.” Já era tarde quando a Manu lançou entusiasmada a proposta. Tinha tudo a ver com um documentário que acabávamos de assistir. Tony Robbins e seu estilo único de ajudar as pessoas. De transformá-las.

Demorei para atinar… “Como assim ?”

“Acho que não chegamos a passar por isso no parto da Nina.”

“Como não???”

“Acho que o parto natural tem um propósito maior. Quero algo mais carnal, uma transformação não só do bebê ou minha, mas nossa como casal. Acho que tudo foi muito artificial no parto da Nina.”

A Nina nasceu de parto normal. Mas a Manu tomou anestesia e aceitamos induzir com ocitocina para acelerar a dilatação que não vinha. Tivemos algumas pequenas complicações no final do parto. Para quem queria um parto natural, passar por esse processo teve o mesmo gosto que abandonar uma prova de corrida antes de terminá-la.

Mas para mim, vivendo de fora, todo o processo do parto foi absolutamente fantástico. Eu já era um outro eu desde então. E ver questionada uma experiência tão única, me tirou o chão. Não consegui me abrir diretamente pro SIM – um dos princípios mais básicos do improviso. Os porquês estavam muito latentes.

“Você não viveu isso há 2 anos e meio atrás ? Mas o que não foi legal ? Por que você não gostou ?”

“Nos preocupamos muito com a técnica e não com o momento. Eu fiquei super tranquila após a epidural, você até dormiu. Talvez ainda não tenhamos passado por tudo.”

Mas na minha cabeça, ainda enviesada, ressoava: ‘Eu estava lá, dando o melhor suporte que eu poderia dar. Cumpri o combinado.’

“O que você quer que eu faça?” lancei ainda atordoado.

“Não sei explicar.”

Até hoje, tudo o que eu havia pesquisado sobre como agir na hora do parto, me levou acreditar que o melhor a fazer era seguir o que a mulher demandava. Apoiar, proativamente, com o necessário, mas seguir. E isso, eu tinha feito com louvor. “Você precisa fazer uma lista, simular o que vai se passar, e me dizer como quer que eu reaja.”

“Talvez se você ler mais sobre o assunto, vai ter uma idéia melhor do que estou falando.” foi sua frase derradeira.

Acho que até cheguei a mencionar que homens pensam em caixas e minha caixa “parto” estava pronta para ser aberta e vivida intensamente no momento do “parto”. Mas talvez não agora.

Fui dormir engasgado. Queria gritar meu SIM com todas as forças, mas estava ainda ancorado, preso à um texto que talvez nem existisse. Tinha tudo para abraçar uma idéia de vida, uma proposta que nos elevaria como pessoas, como casal. Uma experiência surreal, e sem drogas. Mas pedia um roteiro.

Acordei incomodado. Tinha um problema pra resolver. E meu lado razão me dizia que já sabia como fazer.

“Temos que escrever, colocar no papel. O que gostamos, o que não gostamos e como vamos melhorar.” (não é disso que é feito um bom e preparado feedback ?). “Vamos  coletar inputs da primeira vez, analisa-los, reavaliar e replanejar a próxima.”

Esqueci que improviso não tem texto. E fui logo lembrado pelo o eco da noite anterior, que ainda me ensurdecia. “Não dá pra prever o que vai acontecer…”

No meu whatsapp ela já tinha me mandado um link sobre o assunto. Mais um, dentre tantos outros enviados e que minha “caixa” ‘tudo vai acontecer do jeito que tem que acontecer’ me falava para não ler. A mensagem se completava: “A parte que mais gostei:”

Descubro que o parto não é cirurgia. Não é assepsia. Não é espetáculo. Parto é o mínimo. é sentir a pureza do que há de mais básico em nós: a vida.  e é passagem. do bebê para fora, do casal para pais. Passagem que precisa ser vivida, atravessada e curtida no arrastar de um longo caminho. que não começa na contração e não termina na expulsão. (sic)

Li o relato de um pai emocionado, que tinha experimentado um primeiro parto como o nosso, mas teve um segundo ainda mais sublime.

…Naquele estágio nós nunca havíamos chegado. Minha esposa foi entrando por um caminho completamente desconhecido. 

E eu disse SIM. Rasguei meu texto imaginário. Aceitei sem pudores algo que pudesse me colocar no mesmo lugar que ela. Que me ajudasse a enxergar com seus olhos, o que minha cegueira me impedia de admirar. Que pudesse fazer com que um ato tão intrinsecamente feminino pudesse se passar também comigo.

Meu choro e lágrimas vieram como os aplausos no final de uma cena. E lembrei que improviso é estar lá, presente, vivendo o momento. Respeitando, confiando, suportando um ao outro. Conectados. Só assim há história. Como se fôssemos um. Visceral. Carnal.

O parto do Dante está previsto para setembro. O meu nascimento para ele aconteceu hoje. Não preciso mais de lista, já sei o que tenho que fazer quando chegar a hora ou melhor, não sei. Vou improVIVER.

Obrigado Gus por mais uma terapia virtual! Aconselho fortemente vocês a lerem o texto completo: https://efeitosdeencontros.wordpress.com/2015/11/15/parto-pra-pai/ .

E, improviva !

Dica: como vocês puderam SIMtir, o SIM é um dos alicerces do improviso! Falaremos aqui muito dele, e de outros princípios nos próximos posts. Alguns já estão prontos e chegarão em breve: Improvivendo com a Nina; Giftback; Os princípios do improviso e muitos mais!

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