O dia em que ele andou

Há tempos a independência dele estava por um fio. Um único dedo que, muito mais do que um apoio físico, representava toda a segurança e a ligação afetiva que ele ainda achava que precisava para seguir seus passos.

Há tempos eu venho abafando meus próximos passos. A carapaça usada ao longo de tantos anos para tentar evitar o sofrimento e as saudades parece que se misturou de vez com a minha pele, sem que eu saiba ao certo o que é uma e o que é outra, como que dominando minhas vontades e escondendo lá no fundo aquilo que meu coração diz.

Nos últimos tempos ele se empenhou. Buscou caminhos, caiu e levantou. Não via outra forma de chegar onde queria, senão pelos próprios passos e pela pontinha de confiança que teimava em segurar. Lutava e esbravejava quando o desviavam do seu caminho, quando tentavam tirá-lo do seu foco.

Nos últimos tempos eu racionalizei. Projetei, tracei metas, planejei. Venci as primeiras respostas para buscar as melhores soluções. Mas não senti. Me digladiei com “porquês” e “e se”s e minha intuição não aprovava o plano brilhante da minha razão.

Ele continuou, explorou, observou. Muitas vezes quase se lançou.

Eu titubeei, gritei, xinguei. Muitas vezes senti que parei.

Na sua jornada, ele usava o tempo com maestria. E se aperfeiçoava. Não tinha pressa, mas não se cansava. Ao contrário, dia após dia, obstinava-se.

Eu já não sabia qual era minha jornada, para onde iria. Para onde rumava. Eu tinha pressa e com toda a energia dispensada em tentar entender, muito me cansava. Ao final de cada dia, já não tinha mais vontade de pensar em nada.

Esses dias ele estava à flor da pele. Irritadiço, mas concentrado. Era como se soubesse que seria dada a largada.

Esses dias eu estava à flor da pele. Estava cavando um tesouro, mas com o mapa errado. Era como se soubesse que eu não sabia nada.

Hoje ele acordou mais feliz. Parece que venceu o vendaval e sentia no rosto aquela sensação gostosa da brisa da manhã.

Hoje eu acordei para mais um dia. Estressado com a rotina da manhã, sem saber ao certo se chegaria a calmaria.

O dia dele teve uma grande ruptura. Como se aquele dedo tivesse se transformado em auto-confiança. Tivesse deixado de existir fisicamente para construir uma ponte imaginária, mas robusta o suficiente para ser atravessada.

O meu dia teve uma grande ruptura. Como se eu tivesse raspado um pouco o casco, despido parte da carapaça. Ao invés de racionalizar, eu senti. Consegui de fato enxergar de binóculos aquilo que meu coração acenava e sorri.

No dia em que eu fui honesto comigo mesmo, ele andou e se riu.

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