Minha flor no meio do deserto

 

É como ver um jardim se abrindo no meio do deserto. Ver vida onde não se espera vê-la.

Das minhas flores, uma tem nome duplo, Maria Aparecida, mas é mais reconhecida e ganha grandeza quando anunciamos seu sobrenome: Gaino. Não porque fosse uma flor de espécie rara, tipo família abastada, ou conhecida. Talvez não antes dela. Foi ela quem o fez assim.

Há um mês e meio ela floriu diferente. Sem que notássemos nada por fora, algo parecia não estar certo por dentro. E nossa luta para que as pétalas continuassem resplandecendo, começou.

Passei a observá-la, a enxergá-la, a tentar decifrá-la. Vi e senti sua coragem e determinação – parte de sua identidade, diluídas pelo tempo e pela vida – voltarem com uma força e serenidade descomunais.

Percebi então que seus gestos, os quais muitas vezes achei forçados ou descabidos, eram de fato genuínos. Talvez pelas dezenas de depoimentos que afirmaram o quanto algumas de suas pequenas atitudes tomaram grandes proporções em seus corações. Gente que brotava junto, que renascia junto, se fazia junto. Que regava agora a ela que sempre, indubitavelmente, colocou família, alunos, amigos, tudo e todos, à frente de si.

Um pouco dela, para ela mesma.

Entendi que sua maquiagem não era para torná-la mais bela. É apenas uma extensão dessa alegria pulsante, uma cor para sua plenitude. É querer, como num pleonasmo vicioso que com ela aprendi, se abrir para fora. É pintar uma aquarela para compor com quem está ao seu redor. É irradiar.

Um dia desses apareceu um anjo no meu jardim. Desses de carne e osso que Deus coloca no nosso caminho. E que por sinal atravessava o deserto também. “Ao raspar minha cabeça e me ver no espelho, comecei a me questionar.” – dizia ele. “Me perguntar ‘quem eu sou?’. E descobri que sou vida, sou estar com as pessoas! Mudei minha visão – e minhas ações – para estar perto de quem eu amo.” Para ele, o espelho foi uma transformação.

Na transformação da minha flor nos espelhamos nós, para renascermos também. Antes éramos pai, irmão, mãe, irmã, cunhado, neta, nora. Hoje somos família. Falamos todo dia. Nos vemos todo dia. Brigamos e rimos todo dia. Lutamos juntos todos os dias. Florescemos família.

“Boa sorte no tratamento que começa hoje”, minha flor escutou. “Lembre-se que o tratamento não é só seu. O tratamento é nosso.” Ao que ela respondeu: “Eu estou fazendo minha parte. E sei que vou vencer.”

Eu discordo. Ela já venceu. E continuará por muito tempo florindo no meio do deserto.

Créditos da imagem destacada: http://meioambiente.culturamix.com/agricultura/flores-no-deserto

 

 

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10 comentários sobre “Minha flor no meio do deserto

    • Que honra receber esse comentário do meu anjo! Como te disse, a conversa que tivemos em um dos dias de radioterapia mexeu muito comigo. Me ajudou a ver beleza em uma situação tão devastadora. Colocar alguns trechos dela aqui é uma forma de mantê-la viva! Beijo grande!

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  1. Karen disse:

    Chorei!!! Que esse amor, essa força e paixão pela vida sejam alimento para o tratamento! Tenho certeza que eh vencedora e continuará vencendo! Digo e direi, admiro a família, o amor de vcs, o carinho como falam uns dos outros e sempre tenho esse modelo como um dos que eu quero seguir, pra mim, pra minha família!

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  2. Manu Correa disse:

    … putz Lucas! tanta coisa q tb sinto, q tb senti. mto amor, mta alegria, sempre aflorados em beijos, abraços e gestos!!
    mtas vezes me perguntaram “o q a Dona Gaino é sua?” e eu nunca soube responder, pq nunca fui aluna dela! a nossa árvore genealógica não nos une, mas nossos corações SIM, com certeza! desde sempre e pra sempre! e nos (os Moreira Corrêa) só temos a agradecer! obrigada “Gaino Albieiro” (s) por serem quem são!
    estou certa que Deus a reserva tranquilidade e mais sabedoria ainda, pra aceitar cada momento, perseverar, acreditar… pq assim tb estamos! todos juntos, cada vez mais fortes.

    amo mto vcs como família, como pessoas, como amigos!

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    • Que lindo isso! Que gostoso ter você por aqui! Eu sinto exatamente o mesmo com vocês! Guardo tudo com muito, mas muito carinho mesmo! E não consigo chamar sua mãe de tia Ro! So tia Zana 🙂 Muito estranho estar na casa da Bebi esses dias e ver tantos momentos que ela passou e lugares que visitou em fotos que eu nem fiquei sabendo: as vidas seguem por caminhos distintos, né!? Mas tenho certeza de que se sentarmos pra trocar ideia, seremos os mesmos pequenos amigos desde sempre! O mesmo com vc e a Du! Obrigado a vocês tbm!!!

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  3. Maria José disse:

    A sua Flor floriu e continuará florindo com todo seu esplendor, porque encontrou um oásis. E a fertilidade da região se dá devido à presença de água. E a água presente nesse oásis especial, chamado família, não é uma água qualquer, é a água viva! Continuem sendo fonte de águas vivas! Gratidão a Deus por esse oásis! Sintam-se todos abraçados fraternalmente!

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